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E quando alguém que ajudou a construir o que conhecemos por conteúdo na internet ensina sobre a produção de conteúdo? Olhos abertos para acompanhar as palavras do professor, palestrante, empreendedor e diretor acadêmico da Digital House Brasil. Nossa conversa passou pela história do conteúdo digital no Brasil, suas percepções sobre o consumo do mesmo, formatos, influenciadores e até a educação do país. Nada melhor para encerrar esta edição do Palavra Chave do que uma imersão com um dos maiores especialistas nacionais

Estamos falando de Edney Souza, o InterNey, que chegou na internet quando “tudo era mato” – ou melhor, um pouco antes: “na verdade, eu ajudei a plantar o mato! Quando olhamos para trás, notamos que o conteúdo era só para quem conhecia de tecnologia. Precisava de uma dose de nerdismo para conseguir publicar conteúdo online.” 

Conexão

Conforme explica o professor, foi só depois dos anos 2000 que iniciou-se um movimento maior de produção: “em 2000 vem o blog, e aí a primeira onda da democratização do conteúdo. Isso porque o blog dispensava o conhecimento técnico profundo… Escreveu, apertou o botão, estava no ar. Mais para frente vem o Twitter como microblog, limitando caracteres, mas facilitando ainda mais a coisa.”

E como evoluímos para a variedade atual? Edney destaca a grande contribuição da banda larga: “mesmo sendo mais fácil com a coisa do blog, ainda dependíamos da conexão. Quando ela se populariza no Brasil, aí passa a ficar mais fácil começar a trabalhar com áudio, vídeo e outros formatos. Desde 2004, por exemplo, já vemos alguns movimentos de gente investindo em microfone para podcast, em câmera para fotos e vídeos e assim por diante até chegar no movimento que temos hoje.”

Influência

O movimento acabou transformando várias autores em profissionais de conteúdo, chegando até os influenciadores e fortalecendo muito o marketing de influência – que já existia de outras formas:

“Vale reforçar que marketing de influência não é novidade. A gente tem presença de estratégias assim desde 40, 50, principalmente na política. Uma das ações era contratar taxistas, porque eles conversavam com muitas pessoas e conseguiam angariar votos. Temos resquícios disso até hoje, dos papos com os passageiros. Depois temos os influenciadores da tv, que eu chamo de era Xuxa-Pelé. E aí quando a gente chega no digital, tem a era dos blogs que eu egocentricamente chamo de era Interney – porque eu tinha o Interney Blog e muitas marcas usaram. 

Com o YouTube, entra a era que chamo de PC Siqueira, onde a gente começa a espetacularização do influenciador. Engraçados, divertidos, gerando audiência pela própria personalidade.  E aí tem a era do Instagram, que eu chamo de era Gabriela Pugliesi. Que expõe a própria vida e deixa a coisa fluir sem muito controle.

Então, dicas para quem é influenciador: responsabilidade com a informação que você passa e com as marcas que te contratam. Verdade, porque se criar crise de confiança abala totalmente o que o público consome de você. E finalmente, saber que seu valor para uma marca tá conectado com o seu poder de gerar vendas. Mesmo que ela não seja direta: gerar conversas que podem causar percepções positivas às marcas e aí por diante.”

Já para marcas que procuram esses produtores de conteúdo, a seleção depende muito do seu objetivo. A dica para quem precisa de engajamento é buscar pessoas que sejam mais especialistas no assunto (com profundidade técnica no assunto). Já para quem deseja vender mais, talvez um microinfluenciador possa ser mais relevante: pessoas mais próximas à realidade dos seguidores que podem agregar valor ao produto demonstrando como usá-lo. Além disso, Edney recomenda analisar linguagem, polêmicas e relações necessárias ao prospectar representantes reais para seus produtos.

Posicionamento

Essa evolução dos influenciadores também diminuiu a distância entre o “eu virtual” e o “eu físico”: “antigamente, o mundo digital era mais distante do mundo real. Mas com a quantidade de plataformas digitais que surgiram, e o papel que elas tomaram na nossa vida (aprendizado, compra e venda, lazer), aumentou o impacto dessa presença. E com isso, amadurecemos nossa postura online, porque o que você dizia antes, alguns viam mas deixavam lá mesmo. Agora tem compartilhamento, tem gente usando todas as redes, então a gente percebe que apesar da reação do outro não ser instantânea, ela pode ter consequências iguais sobre o que fazemos e falamos. Tem gente sendo demitida pelo que postou, gente sendo expulsa de escolas. Gente perdendo contratos – e claro, o oposto também. Então o fato de estar tudo conectado exige mais unidade, especialmente para marcas e seus posicionamentos.” 

A unidade ajuda, inclusive, a melhorar o relacionamento com o público em tantos múltiplos canais. Uma mesma marca ou pessoa pode ter seguidores no Instagram, no LinkedIn, no Facebook e aí por diante. Será que o segredo é só replicar o conteúdo ou fazer algo totalmente diferente para cada canal? O especialista defende que o importante é manter uma mesma voz, mas não perder de vista o que o consumidor tem de expectativa em cada ambiente:

“A empresa que replica a mesma mensagem normalmente tem menos engajamento. Por quê? Porque as pessoas esperam conteúdos diferentes em cada espaço. A linguagem pode e deve ser a mesma, mas uma pessoa no LinkedIn, por exemplo, normalmente espera ver discussões profissionais, que melhoram sua carreira, sua vida profissional, acadêmica… Já no Instagram, ela quer ver coisas bonitas, inspiracionais, motivacionais… As empresas que enxergaram essas expectativas e criam posturas diferentes para cada canal estão com resultados melhores no engajamento.”

E o público utiliza das marcas e dos influenciadores também para aprender. O que antes ficava retido em enciclopédias, escolas e professores, hoje está no YouTube, nas redes sociais e na voz de muitos especialistas distribuídos por aí. Edney, como professor, fala que seu papel é, portanto, de mediação. “O conhecimento já está aí. Mas não está claro como usá-lo na prática. Como transformar o que vi em algo que fará diferença na minha vida e na vida do outro? Como isso se torna algo produtivo e se conecta com outros conhecimentos que me permitem decifrar questionamentos? Essa mediação precisa acontecer no conteúdo que cada um produz, e também, claro, nas salas de aula e escolas atuais.”

Desenvolvimento

O aprendizado ainda conta com a tecnologia a seu favor. Edney lembra do ensino à distância e as plataformas de estudo. Depois de tanta evolução, porém, para onde a digitalização vai se expandir? O especialista acredita que seja impossível determinar uma única profissão do futuro:

“Nós ainda temos muitas tecnologias e afins para serem exploradas, então a forma de nos prepararmos para o que ainda não conhecemos é através do aprimoramento das soft skills. Porque vamos precisar de gente para desenvolver essas tecnologias, alimentá-las, melhorá-las… Vai continuar sendo um trabalho de pessoas para pessoas, mas algumas habilidades podem fazer diferença… A habilidade de questionar a forma como as coisas são feitas, por exemplo. A inteligência emocional que ajuda a lidar com a emoção do outro. A própria criatividade, que pode sim ser desenvolvida, estimulando sentidos, aprendendo a conectar pontos… Então, gente com liderança, capaz de negociar, com criatividade, com inteligência para ambientes de alta pressão será necessária em qualquer tipo de profissão, por isso acho que é uma preparação essencial para qualquer que seja o futuro que vem por aí com todo esse universo digital.”

Ele acredita, ainda, que essa tecnologia “promete”. Com o espaço físico cada vez mais limitado e mais caro, o envolvimento maior com a digitalização e o conhecimento de novas técnicas, mais e mais pessoas estão empreendendo dentro do ambiente digital, pensando em otimizar seus próprios custos e as experiências dos clientes. “O digital abre margem para teste. Se você abre uma loja física e não dá certo, é muito mais complexo de desfazer. Mover as coisas no ambiente online é muito mais simples: testar, ajustar, diminuir riscos… O digital é onde está a grande oportunidade para quem vai começar seus negócios. Sem contar que mesmo quem está no local físico, está totalmente conectado com o digital. Na China, através de QR Code, você baixa o cardápio todo e já pede digitalmente. E acho que é aí que está a diferença… Hoje não somos mais virtuais. Somos digitais. Pessoas reais, empresas reais, serviços reais apenas processados digitalmente. Tem muito espaço para avançar nesse sentido.”

E continua: “o próprio trabalho hoje é digital. Ele é real, tem entregas reais, mas é totalmente digitalizado, permitindo inclusive que você possa trabalhar de qualquer lugar. Se você sente que não tem estrutura em casa ou em um escritório, pode ir facilmente para um coworking, que tem inclusive bem menos custo de facilities. Mas o melhor é que você pode ser inclusive mais produtivo, já que não precisa daquele contato direto, com interrupções contínuas. Afinal, já vai pedir todas as informações necessárias para um projeto, vai passar o máximo de dados para executar alguma tarefa e não vai precisar atrapalhar processos criativos com contatos excessivos. Além disso, não vai perder oportunidade de contratação de profissionais ou mesmo de intercâmbio cultural. Portanto, seja para empreender na própria startup ou para prestar serviço para outras empresas, a digitalização tem muito terreno que ainda não exploramos.”

Transformação

Um terreno tão vasto, que parece exigir uma conexão ininterrupta dos profissionais da área. Será que isso impacta negativamente a vida das pessoas? Para Edney, não: a transformação é muito mais benéfica do que qualquer outra coisa.

“Ela me ajuda a desempenhar esses meus diversos papéis. Como professor, consigo pesquisar fontes, distribuir materiais digitais, consigo fazer atividades online em sala de aula com ferramentas específicas. Como pai, peço farmácia, roupinha de criança em promoção, consigo trazer algumas coisinhas de outros lugares que eu não conseguiria ir e dar um carinho para minha filha.

Como diretor de empresa, gestor de 70 pessoas, consigo escrever processos online e distribuí-los. Mandar mensagens de uma única vez para todo meu time – diferente de quando não éramos digitais e precisava reservar auditório, vincular agendas e fazer um monte de processos que hoje substituo por um áudio.

Tem gente que acha que isso afasta pessoas. Eu acho que isso conecta. Vi meus sobrinhos em outro país. Minha irmã chegando de uma viagem. Compartilho momentos da minha filha com a mãe dela e vice-versa. E ainda ganho tempo para brincar com a pequena enquanto meu pedido está sendo processado, minha equipe está organizada e meus alunos têm informação para estudar. Eu só consigo fazer tudo isso porque sou digital.”

E também usando de tal recurso, encerramos esse papo incrível com alguém que, sem dúvidas, contribuiu para uma internet mais democrática, mais acessível e mais técnica em todo o país. Seja você um produtor de conteúdo, uma marca ou mesmo um consumidor de tudo isso, fica a mensagem de soluções modernas somadas a uma premissa velha conhecida da Halya: é tudo sobre pessoas. Conectadas, digitalizadas, interessadas, curiosas, inteligentes… E cheias de possibilidades. Que venha o futuro. 

Com a palavra-chave, Edney (Interney) Souza:

interney-halyaConhecido no mundo digital como InterNey, é Diretor Acadêmico na Digital House Brasil, Organizador da Social Media Week São Paulo e editor do blog WordPress.com Brasil. Formado em Processamento de Dados pela Universidade Mackenzie, com pós-graduação em Tecnologia da Informação Aplicada a Negócios pela FASP, trabalha no mercado de tecnologia e comunicação desde 1990. A partir de 2012 passou a se dedicar à carreira de consultor, professor e influenciador digital.

Site: www.interney.net | Twitter: @interney
LinkedIn:
Edney (Interney) Souza|Instagram: @interney

 

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